NENO DEL CASTILLO

ARTISTA PLÁSTICO

Com licenciatura Plena em Educação Artística é Mestre em Linguagens Visuais e Doutor em Processos Artísticos Contemporâneos. Já atuou como Professor, Curador e Produtor Cultural Independente, respondeu pelo Setor de Artes Plásticas da Funarte de 1992 à 2001. Entre 2003 e 2007, coordenou o Programa de Artes Visuais no Museu Imperial de Petrópolis. Diretor assistente da curadoria do setor de Artes Visuais da exposição Europalia Brasil na Bélgica em 2011. 

Artista desde os anos 80, expôs coletiva e individualmente no Brasil e no exterior. Destacam-se entre as exposições: Galeria Zagut em 2020 e 2019, Nômada em 2019, ambos no estado do Rio de Janeiro. Acervo do setor de iconografia da Biblioteca Nacional (2019 RJ); Trabalho nas Galerias Gaby Índio da Costa Arte Contemporânea (RJ), Almacen (RJ) e Quatro Ventos Escritorio de Arte (DF). Participações ArtRio 2016,2017. Asas a Raízes, 2015, Caixa Cultural (RJ). Novas Aquisições – Coleção Gilberto Chateaubriand, 2012, MAM (RJ). Projetos Improváveis, 2010, Caixa Cultural (RJ), Mac Vazio – A Essência da Arte, 2007 (Niterói). Arquivo Geral, 2006, Centro Cultural Helio Oiticica (RJ). Monumentália Carioca, 2006; Galeria 90 Arte Contemporânea (RJ – individual). Capa da Revista Lápiz nº221, 2006. Educação, Olha! 2005 Galeria Gentil Carioca (RJ). Grande Orlandia 2003 (RJ). Desenhos, 200, Galeria Nara Roesler (SP – individual). Desenho Contemporâneo, 2000/1999 (Paço Imperial, RJ), Caellum Gallery (NY/EUA), Centro Cultural São Paulo (SP). Moi Box Project, 1999; Museum of Installation (Londres/UK). Johnny The Second, 1998, Kundterk (Koln, Alemanha). Prêmio Brasília de Artes Visuais, 1998, Galeria Athos Bulcão (DF). Vento Sul, 1996; Centro Cultural de Florianópolis (SC), Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Curitiba), Palácio do Itamaraty (DF). Situações Transitivas, 1995, Galeria Joel Edelstein (RJ). Desenhos, 1992; Galeria deArte UFF (Niterói, RJ); Sala Corpo de Exposições, (BH/MG); Museu de Arte Contemporânea (Goiania,GO); Museu de Arte de Brasília (DF). Mostra do Vídeo das Delícias de um jardim, 1992, Festival Internacional du Film sur L’Art (Lausanne, SUIÇA). 11º Salão Nacional de Artes Plásticas, 1989 (RJ). Individual, Livros de artistas e desenhos, 1985 Studio T, Manhattan (EUA). Livro de Artista, 1984, Solar Grandjean de Montigny (RJ). Desenho de Animação, 1984, Planetário da Gávea (RJ).

“A periferia de uma nuvem não é mensurável com exatidão, é uma linha fractal de Mandelbrot”, diz Jean-François Loytard. A partir da raiz visual da nuvem como arquitetura da natureza sempre em estado processual, e como metáfora conceitual primigênia, se organiza esta exposição de Neno del Castillo que tem sabido articular-se nos dois espaços da galeria, construindo-se sobre uma ligadura de desenhos e fotografias – dois registros tradicionalmente dispares – que aqui acabam sendo convergentes por obedecer a um mesmo projeto de cartografia estética, feito no âmbito urbano do Rio de Janeiro, e que atende a uma mesma semântica: os desenhos de palavras–pronomes e os instantâneos fotográficos funcionam ambos como caligrafias. A nuvem, em sua errância construtiva (sempre mais movimento que monumento), se espelha no chão qual sombra, em nosso contexto cotidiano. E a atração pelo vocabulário do que se arma e se desarma, pelo composto e novamente decomposto, nos remete a uma atenção pela arquitetura das sensações, a sua nascente visual quase imaterial, a uma vertente oiticiana. De fato, a condição do translatício, do mutável abriga a poética destes trabalhos, em que instante e transição são a mesma coisa, assim como também instante e dissolução. Talvez por isso as cenas de rua, de lugares onde não se pratica o exclusivismo social de outros bairros cariocas, alimentam uma condição de anonimato, ou seja, de subjetividade dessacralizada. E, como acontece com as fotografias de Philip-Lorca di Corcia, o que se contempla não é a verdade absoluta da imagem, mas sua construção editada – talvez mais verdadeira do que sua aparência real – de “não- acontecimentos”, pois não há temática fundada nem excessiva relevância nas imagens, sempre prosaicas, circunscritas a seu devir real, fora de tentações documentais ou do “perigo expressionista” que certo olhar popular pode provocar. De fato, as massas de cor, a intensidade tonal, falam alto, magnetizam imagens que lidam com a aleatoriedade e com o dissenso na composição geral. Por outro lado, há um definido campo de energias verbais, inscritas como poemas visuais: o uso dos fonemas espacializados, em peregrinação semântica (as pessoas do verbo são inter-semiotizadas em sua dicção visual e lingüística). Nesse sentido, é significativo que na ciranda de signos organizada pelos desenhos os pronomes percam sua autonomia, se reformulem – como acontece com nossas passagens urbanas. A própria fisionomia múltipla (e com transparências) dos desenhos ajuda, com suas camadas, a anular leitura única. Feitos com bastão oleoso, neles acontece uma dinâmica de contração e dilatação das figuras/configurações em jogo. A arvore de letras rizomática confunde fundo e superfície, mas sintoniza a visualidade pulsante dos instantâneos. Não em vão, o fluxo mais temporal das cenas públicas, em sua dispersão, vincula-se com a estrutura de funcionamento mais “sistêmica” e espacial das categorias verbais, aqui também simbólicas em sua dispersão. À pele dos desenhos incorpora-se o tempo, a seqüencialidade, e, às fotografias, coordenadas espaciais, escala, sendo deslimites dos entornos, ambos registros. Como é notório, o título Monumentália não está isento de certa ironia subterrânea, pois além de sua capacidade neológica, essa cartografia de Neno del Castillo se levanta como contramonumento, como monumento ao movimento, à efemeridade vital que já foi divisada por Baudelaire e Benjamin lá nos primórdios do moderno. Só que, agora, multiplicou-se em fragmentação infinitesimal, esgarçada em nuvens-formas-estruturas-palavras em franca aceleração e hibridismo. Se lembrarmos de que o eu é químico (Jean Rostand), aqui vemos como subjaz a dobra subjetividade/coletividade, e vem-se imantando até quase não ser possível distingui-la, aumentando sua dose química. Neno del Castillo tem prestado atenção a esse cerne, a uma arquitetura imagética móvel que não se pauta pela glória da permanência e sim pelo trânsito da fugacidade. Longe, portanto, da quimera estética dos poderes, sempre empenhados em mostrar os rigores, sedutores ou não, da dominação em seus monumentos, outrora escultóricos e agora mais arquitetônicos. A tríade nuvens-pessoas-grafismos não só vive de sua permutação, como de acionar esta paridade sempre em xeque cultura/ natureza. Mas sobretudo de reconhecer o estatuto relacional deste tecido que somos, que altera posições, composições e cursos, e que nunca sonha com a completude.

Adolfo Monteio Navas